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A
BOMBA DE SEU DÃO
(uma
nova versão)
Pedaços da história da época
da
Independência
de Sumé.
Há episódios engraçados e pouco conhecidos da história de
Sumé que, por necessitarem de adição de alguns detalhes – para
recomposição da verdade histórica, devem vir novamente ao
conhecimento público.
É o caso da Bomba de Seu Dão, acontecimento bastante
conhecido do sumeense quatrocentão, entendido este termo como
denominação daqueles conterrâneos privilegiados que viveram os
tempos áureos das lutas e epopéias da Independência da Vila de São
Thomé, hoje nossa querida Sumé.
São sumeenses privilegiados porque sofreram o guante da tirânica
Monteiro nos avoengos tempos de dominação dos déspotas da UDN, o
partido político com nome de mulher, aliado à parte ruim do PSD,
comandada, à época, pelo Deputado João Feitosa Ventura. São
privilegiados porque, depois, do fim de um tirano reinado de opressão,
saíram vitoriosos com a chegada de nossa independência política.
Ainda estão por aqui para testificar os acontecimentos as legendas
sumeenses da gema Satrinho Jacinto, Severino Leite, Seu Dé, Diógenes
Soares, Ritinha Leite, Creusa Mendonça, Zélia Brás, Zita Vieira e
tantos outros que a memória um pouco falha não enseja condições
de registro nestas despretensiosas páginas. A inexorabilidade do
tempo encarregou-se de, paulatinamente, esfriar ódios, limar
asperezas e deixar ao oblívio antigas mágoas e ressentimentos.
Hoje, Sumé e Monteiro têm uma convivência salutar e harmoniosa.
Como se disse, a independência de Sumé não ocorreu de
forma incruenta, pois foi arrancada a fórceps, com o sangue de
muitos nas prisões arbitrárias feitas pelos delegados poderosos e
mandões de Monteiro, a mando de interventores turrões e políticos
rancorosos. Luiz de Du e Joãozinho de Pretinha que o digam, se
vivos fossem, das inúmeras cadeias que registraram em seus currículos
por defenderem os ideais de liberdade dos verdadeiros sumeenses
(sempre se falou em algumas ‘pisas’ que levaram). Luiz de Du no
futebol, ganhando sempre – e de forma galharda - dos times de
Monteiro; Joãozinho, fazendo paródias com sua famosa verve
musical. A nossa libertação se deu, por justiça histórica, à
força, à coragem, à tenacidade à ousadia e ao trabalho indômito
do grande José Farias Braga, um
magricela branco, doente, de
idéias avançadas - no dizer do ilustre ministro José Américo
de Almeida. Aqui, Zé Farias aportou na década de 1940 com o
objetivo de exercer a sua profissão de farmacêutico e também em
busca do clima seco e agradável do Cariri com o fanal de obter
melhoras para a sua frágil saúde. Zé Farias era um abnegado,
visionário, às vezes, mas um homem público de predicados inexcedíveis
quando se tratava do exercício da atividade política. Tinha alguns
defeitos, é verdade, a exemplo de ser admirador de Hitler e não
ser muito chegado a judeus, mas um grande homem, honesto e generoso.
Muitos estudantes pobres de Sumé a ele devem o privilégio de
folhear e estudar nos livros de sua enorme biblioteca e receberem
auxílios para se estabelecerem
em Campina Grande
visando a possibilidade de matrícula nos seus bons colégios, coisa
inexistente por aqui. A sua casa, na Rainha da Borborema, era aberta
a todos.
Decaído o império do Presidente Vargas, em 1945, com o fim
do Estado Novo, os militares que lutaram bravamente na Itália
contra as forças da Alemanha na 2ª Guerra Mundial – entenderam
que não tinha sentido lutar pela democracia na longínqua Europa
enquanto aqui, no Brasil, reinava uma férrea ditadura, com o
Parlamento fechado e a existência de um verdadeiro estado policial.
O ideal de redemocratização se alastrou por todo o país. Com a
deposição de Getúlio Vargas, novos partidos políticos foram
criados e eleições gerais foram marcadas imediatamente, com o
coroamento de uma nova Constituição em 1946.
Em 1950, numa memorável campanha política, a UDN e o PSD,
Partido Social Democrático, formaram uma grande coligação,
juntando o ministro Zé Américo e Rui Carneiro contra o forte
partido que fora formado por Getúlio Vargas, o PTB, comandado, na
Paraíba, por Argemiro de Figueiredo. Vitoriosa, a Coligação
elegeu José Américo para Governador e Rui Carneiro para Senador,
dando-se a posse no início de
1951. A
grande amizade de José Farias com Zé Américo ensejou a independência
de Sumé, tal como prometido em grande comício realizado
em São Thomé
, mesmo contrariando alguns caciques da UDN, como Oswaldo Trigueiro
e João Feitosa, de Monteiro. O compromisso de independência foi de
tal ordem, que a lei de emancipação política saiu logo no mês de
fevereiro de 1951, com a instalação da comarca ocorrendo em 1º de
abril daquele ano, nossa data magna. José Farias – como não
poderia ser diferente, foi o nosso prefeito escolhido em eleição,
aclamado com extravagante maioria, como era esperado.
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Seu Dão e sua
bomba, em 03.10.1951. |
O evento Bomba de Seu Dão, que levou Sumé às gargalhadas,
já foi registrado brilhantemente pela pena magistral do Doutor
Djaci Ferreira de Sousa, pernambucano da gema, mas filho adotivo e
honrado de Sumé, inteligência marcante e um dos maiores expoentes
de nosso foro, onde se houve com mestria e proficiência como
advogado e também no exercício do alto cargo de Promotor Público
de nossa comarca. Quando ainda desempenhava suas funções de
servidor público na capital do Estado, o Doutor Djaci contava com
um naipe extenso de amigos de tertúlias e de academia, entre eles,
alguns jornalistas de escol, a exemplo do Doutor Djaci Andrade, que
escrevia para o Correio da Paraíba. Neste periódico, a história
da Bomba de Seu Dão foi publicada com destaque. Hoje, torna-se
apenas necessário acrescentar alguns pormenores, para fins de
resgate histórico.
A memória de Sumé registra que a bomba encomendada ao
fogueteiro Seu Dão tinha por objetivo, ao ser detonada, ecoar e dar
um aviso impávido e retumbante ao orgulhoso povo de Monteiro, isso
numa distância aproximada de trinta e oito quilômetros. A idéia
era essa, sim, mesmo que se afigurasse como improvável, avisaria
aos orgulhosos monteirenses que Sumé tinha o seu valor e a sua
altivez, mostrando o seu potencial de fogo ao pipocar uma bomba de
alguns quilotons para assustar o povo de Monteiro.
Para tanto, foram contratados os serviços profissionais de
Seu Dão, um fogueteiro de Caruaru – pai de Nega Fon, que morava
em nosso burgo. O negócio foi fechado, a bomba manufaturada; João
de Deus, que era Secretário-Geral da Prefeitura, cuidou de todos os
detalhes. A bomba era oblonga, não muito grande, mas de um tamanho
incomum que não se assemelhava nem de longe com as maiores bombas
feitas por Seu Nazinho ou por João Fogueteiro, pai de Mesquita, a
pedido de João Semeão para soltá-las nos comícios da campanha
política de 1946 ou aquelas feitas para agradar padre Sílvio Celso
de Melo nas festas de nossa padroeira, Nossa Senhora da Conceição.
A fotografia da malsinada carga ambulante dá bem uma idéia de suas
reais dimensões. É interessante notar, nessa fotografia, o orgulho
que brotava veladamente do rosto de seu Dão ao sustê-la, na presença
de Seu Orió, Seu Bitu e outras pessoas, admiradas, que se
encontravam presentes à romaria que acompanhou o cortejo vindo do
Alto do Campo da Serra. A bomba pretendida tinha uma força
explosiva extraordinária, era voz corrente. Dizia-se que, ao ser
detonada, todas as vidraças de Sumé seriam despedaçadas; as casas
de alicerce fraco seriam derrubadas com o ribombo; os recém-nascidos
teriam os ouvidos estourados, e assim por diante. O pior, é que a
população, crédula, tinha essas coisas por verdade. A explosão
da bomba seria um verdadeiro Dia de Juízo, a Batalha do Armagedon,
o Apocalipse, enfim.
Chega, então, o dia de explosão do artefato, um dia de
domingo. Seu Dão, todo ancho e orgulhoso de sua indústria, de sua
obra-prima, na qual havia posto todo o seu engenho e arte - desfilou
olímpica e vaidosamente pela Rua Nova com a famosa bomba. Parou em
frente à casa de Seu Orió (Oriosvaldo Travassos Campos,
Guarda-Fiscal originário de antiga família do Congo, e esposo de
dona Estela Araújo, nossa professora e diretora do vetusto Grupo
Escolar Feitosa Ventura, tugúrio sagrado de nossas primeiras
letras) onde se reuniu grande multidão para ver, tocar e apreciar a
novidade. A fotografia que ilustra esta página é prova inconteste
de que existiu, existiu mesmo, a famosa bomba. Alguns sumeenses
ainda desconfiam que tudo não passou de lenda, de histórias
noturnas geradas nas noitadas de pileques homéricos que tomavam
religiosamente Elias Duarte, João de Deus Rafael, Machadinho,
Doutor Antonio Torreão Brás, Juarez Rafael, Severino Leite e
outros boêmios no famoso Bufê de Barata, na velha Praça Adolfo
Mayer. Ainda bem que Carlinhos de Preta, que está na foto, está aí
para provar a existência real do objeto de nossa história.
Surge, então, uma dúvida cruel. Quem iria tocar fogo no
estopim? Quem teria coragem suficiente a tal empreitada? O próprio
Seu Dão tinha lá suas desconfianças, pois sabia da potência
fatal do artefato e não tinha motivos para se arriscar. Chegou-se,
então, a um acordo. O fogueteiro, o nosso herói, engendraria um
rastilho bem comprido para acoplar à bomba, e assim, o perigo
estava afastado. Seria, ele mesmo, o encarregado pela detonação.
Mas, por garantia, Seu Dão exigiu de Zé Farias que arranjasse um
veículo rápido, potente, novo – que pudesse dar uma arrancada
violenta para retirar do local imediatamente o agente que iria
cumprir a nobre, heróica e perigosa missão. Assim, se fez, pois
Nandinho Leite, que possuía o carro mais novo do Município à época,
um Ford Mercury 1948, prontificou-se a levar e trazer Seu Dão são
e salvo.
Do observatório onde estávamos situados, em cima do Bufê
de Barata, vimos passar na descida do Alto do Cruzeiro um vulto
preto em alta velocidade pela estrada poeirenta e cheia de trepidações
e catabis. Quando o bólide passou em frente ao Bar de Das Dores,
José Soares, afeito, como sempre, a aumentar exageradamente o
volume de suas estórias, avaliou a velocidade em cento e oitenta
quilômetros por hora. Era o automóvel de Nandinho em louca
disparada (relembrando Artur Vitrola) emergindo na vila, e, dizem
alguns, que só foi parar
em Santa Luzia
, no hotel de Isaura. Lá, se encontrou com Pedro Odon e tomaram
umas cervejas a fim de acalmar os nervos. Mesmo assim, o corajoso
motorista permaneceu por um longo tempo bastante desconfiado.
EPÍLOGO
O final da estória é bastante conhecido em nossa terra.
Depois de tanto alvoroço, despesas, anseios, expectativas e
cuidados especiais na preparação do artefato, este não chegou a
explodir. Na hora agá, viu-se, somente, uma grande nuvem de fumaça
negra (esta, talvez, tenha chegado a Monteiro) lá pras bandas da
Barragem de Zé Caboclo, nos Oitis dos Aleixos. Decepção total.
Seu Dão, como não poderia deixar de ser, ficou enormemente
encabulado com o acontecido. Achou, de pronto, uma desculpa para o
seu insucesso, afirmando que o fracasso decorreu do pouco tempo
dedicado à secagem das embiras molhadas que atavam a bomba. Depois,
passou uns bons tempos andando por trás das ruas de Sumé para se
esconder e evitar comentários desairosos à sua reconhecida competência
como fogueteiro.
Mas o tempo passou inexorável, e, um belo dia, Seu Dão,
refeito, já se arriscava a andar livremente por Sumé. Passou, então,
no Bufê de Barata, lá encontrando um velho cachaceiro que aqui
chegara, vindo das bandas de Bezerros, no Pernambuco. Chamava-se Zé
Cunha. Era um herói pícaro, isto é, não era bom, não era mau.
Pobre, educado, manso por natureza, de boa prosa, era o homem das
onze profissões: jogador de futebol, oficial na sapataria de Pedro
Aleixo, músico da Banda de Padrinho Antônio Josué. Porém, tinha
um luxo: toda vez que se embriagava (diariamente, quer dizer) no Bar
de Barata, com bebidas sempre pagas por Elias Duarte, gozava da delícia
de ser rebocado no carro de mão do nosso brioso Capitão Geraldo
Mendonça, bom motorista e um dos maiores músicos de nossa terra.
Quase dormindo numa mesa do bar, ainda babando pelo canto da
boca e exalando os vapores do álcool, Zé Cunha ouviu uma quase
piada da boca de Seu Dão, que lhe disse, com blandícia e lhaneza,
como era do seu feitio:
- Seu Zé Cunha, parece que, hoje, o senhor exagerou um pouco
na bebida.
Zé Cunha entreabriu os olhos, vislumbrou irreverentemente
Seu Dão e respondeu na bucha:
- É, MAS A BOMBA “FAIOU”.
Pronto, era o que faltava. Ante as gargalhadas fatais e as
cascatas de hilaridade recolhidas da boca dos presentes, Severino
Leite, et caterva, Seu Dão
não teve alternativa. Arrumou os poucos haveres que possuía, e foi
embora definitivamente para Caruaru em cima do caminhão de Antonio
do Óleo, que, justamente, neste dia, levava um carregamento de carvão
para o agreste pernambucano.
Post scriptum:
Tudo isso ocorreu, realmente. Mas a versão, ora apresentada,
tem a finalidade de resgatar uma verdade: a bomba encomendada não
serviria apenas para avisar ao povo de Monteiro que Sumé agora era
independente. Na verdade, todas as despesas feitas com o preparo da
bomba foram pagas por Inácio Feitosa, político monteirense e amigo
de Sumé, que tinha obtido uma grande vitória no Tribunal de Justiça
numa contenda que mantinha com Pedrinho Bezerra a respeito da eleição
para Prefeito de Monteiro daquele ano. Como o telefone do Correio, já
naquele tempo, não funcionava muito bem, a melhor forma de Monteiro
tomar conhecimento da chegada da comitiva de Inácio Feitosa em Sumé,
em direção a Monteiro, era dar um tiro de estridência fenomenal.
A bomba de Seu Dão serviria a tal desiderato.
Revoguem-se, portanto, todas as disposições em contrário.
João
Bosco Pereira
(João
Pessoa-PB, setembro de 2004)
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