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A BOMBA DE SEU DÃO - João Bosco Pereira

 

Nota do editor: Este texto, muito bem escrito, diga-se de passagem, não se detém exclusivamente ao episódio que leva o título, mas faz um vôo sobre a história de Sumé, notadamente o período da sua independência. A narrativa, reproduzida na íntegra, é a visão do autor sobre os fatos narrados, que pode ser corroborada ou contestada, como, aliás, qualquer fato histórico. Entretanto, é uma contribuição valiosa à memória da cidade, e, desde já, vai o meu agradecimento em nome de todos os sumenautas.     

Sonielson Juvino Silva     

A BOMBA DE SEU DÃO

(uma nova versão)

 

Pedaços da história da época da

 Independência de Sumé.

 

                Há episódios engraçados e pouco conhecidos da história de Sumé que, por necessitarem de adição de alguns detalhes – para recomposição da verdade histórica, devem vir novamente ao conhecimento público.

                É o caso da Bomba de Seu Dão, acontecimento bastante conhecido do sumeense quatrocentão, entendido este termo como denominação daqueles conterrâneos privilegiados que viveram os tempos áureos das lutas e epopéias da Independência da Vila de São Thomé, hoje nossa querida Sumé.

                São sumeenses privilegiados porque sofreram o guante da tirânica Monteiro nos avoengos tempos de dominação dos déspotas da UDN, o partido político com nome de mulher, aliado à parte ruim do PSD, comandada, à época, pelo Deputado João Feitosa Ventura. São privilegiados porque, depois, do fim de um tirano reinado de opressão, saíram vitoriosos com a chegada de nossa independência política. Ainda estão por aqui para testificar os acontecimentos as legendas sumeenses da gema Satrinho Jacinto, Severino Leite, Seu Dé, Diógenes Soares, Ritinha Leite, Creusa Mendonça, Zélia Brás, Zita Vieira e tantos outros que a memória um pouco falha não enseja condições de registro nestas despretensiosas páginas. A inexorabilidade do tempo encarregou-se de, paulatinamente, esfriar ódios, limar asperezas e deixar ao oblívio antigas mágoas e ressentimentos. Hoje, Sumé e Monteiro têm uma convivência salutar e harmoniosa.

               Como se disse, a independência de Sumé não ocorreu de forma incruenta, pois foi arrancada a fórceps, com o sangue de muitos nas prisões arbitrárias feitas pelos delegados poderosos e mandões de Monteiro, a mando de interventores turrões e políticos rancorosos. Luiz de Du e Joãozinho de Pretinha que o digam, se vivos fossem, das inúmeras cadeias que registraram em seus currículos por defenderem os ideais de liberdade dos verdadeiros sumeenses (sempre se falou em algumas ‘pisas’ que levaram). Luiz de Du no futebol, ganhando sempre – e de forma galharda - dos times de Monteiro; Joãozinho, fazendo paródias com sua famosa verve musical. A nossa libertação se deu, por justiça histórica, à força, à coragem, à tenacidade à ousadia e ao trabalho indômito do grande José Farias Braga, um magricela branco, doente,  de idéias avançadas - no dizer do ilustre ministro José Américo de Almeida. Aqui, Zé Farias aportou na década de 1940 com o objetivo de exercer a sua profissão de farmacêutico e também em busca do clima seco e agradável do Cariri com o fanal de obter melhoras para a sua frágil saúde. Zé Farias era um abnegado, visionário, às vezes, mas um homem público de predicados inexcedíveis quando se tratava do exercício da atividade política. Tinha alguns defeitos, é verdade, a exemplo de ser admirador de Hitler e não ser muito chegado a judeus, mas um grande homem, honesto e generoso. Muitos estudantes pobres de Sumé a ele devem o privilégio de folhear e estudar nos livros de sua enorme biblioteca e receberem auxílios para se estabelecerem em Campina Grande visando a possibilidade de matrícula nos seus bons colégios, coisa inexistente por aqui. A sua casa, na Rainha da Borborema, era aberta a todos.

                Decaído o império do Presidente Vargas, em 1945, com o fim do Estado Novo, os militares que lutaram bravamente na Itália contra as forças da Alemanha na 2ª Guerra Mundial – entenderam que não tinha sentido lutar pela democracia na longínqua Europa enquanto aqui, no Brasil, reinava uma férrea ditadura, com o Parlamento fechado e a existência de um verdadeiro estado policial. O ideal de redemocratização se alastrou por todo o país. Com a deposição de Getúlio Vargas, novos partidos políticos foram criados e eleições gerais foram marcadas imediatamente, com o coroamento de uma nova Constituição em 1946.

                Em 1950, numa memorável campanha política, a UDN e o PSD, Partido Social Democrático, formaram uma grande coligação, juntando o ministro Zé Américo e Rui Carneiro contra o forte partido que fora formado por Getúlio Vargas, o PTB, comandado, na Paraíba, por Argemiro de Figueiredo. Vitoriosa, a Coligação elegeu José Américo para Governador e Rui Carneiro para Senador, dando-se a posse no início de 1951. A grande amizade de José Farias com Zé Américo ensejou a independência de Sumé, tal como prometido em grande comício realizado em São Thomé , mesmo contrariando alguns caciques da UDN, como Oswaldo Trigueiro e João Feitosa, de Monteiro. O compromisso de independência foi de tal ordem, que a lei de emancipação política saiu logo no mês de fevereiro de 1951, com a instalação da comarca ocorrendo em 1º de abril daquele ano, nossa data magna. José Farias – como não poderia ser diferente, foi o nosso prefeito escolhido em eleição, aclamado com extravagante maioria, como era esperado.

Seu Dão e sua bomba, em 03.10.1951.

                O evento Bomba de Seu Dão, que levou Sumé às gargalhadas, já foi registrado brilhantemente pela pena magistral do Doutor Djaci Ferreira de Sousa, pernambucano da gema, mas filho adotivo e honrado de Sumé, inteligência marcante e um dos maiores expoentes de nosso foro, onde se houve com mestria e proficiência como advogado e também no exercício do alto cargo de Promotor Público de nossa comarca. Quando ainda desempenhava suas funções de servidor público na capital do Estado, o Doutor Djaci contava com um naipe extenso de amigos de tertúlias e de academia, entre eles, alguns jornalistas de escol, a exemplo do Doutor Djaci Andrade, que escrevia para o Correio da Paraíba. Neste periódico, a história da Bomba de Seu Dão foi publicada com destaque. Hoje, torna-se apenas necessário acrescentar alguns pormenores, para fins de resgate histórico.

                A memória de Sumé registra que a bomba encomendada ao fogueteiro Seu Dão tinha por objetivo, ao ser detonada, ecoar e dar um aviso impávido e retumbante ao orgulhoso povo de Monteiro, isso numa distância aproximada de trinta e oito quilômetros. A idéia era essa, sim, mesmo que se afigurasse como improvável, avisaria aos orgulhosos monteirenses que Sumé tinha o seu valor e a sua altivez, mostrando o seu potencial de fogo ao pipocar uma bomba de alguns quilotons para assustar o povo de Monteiro.

                Para tanto, foram contratados os serviços profissionais de Seu Dão, um fogueteiro de Caruaru – pai de Nega Fon, que morava em nosso burgo. O negócio foi fechado, a bomba manufaturada; João de Deus, que era Secretário-Geral da Prefeitura, cuidou de todos os detalhes. A bomba era oblonga, não muito grande, mas de um tamanho incomum que não se assemelhava nem de longe com as maiores bombas feitas por Seu Nazinho ou por João Fogueteiro, pai de Mesquita, a pedido de João Semeão para soltá-las nos comícios da campanha política de 1946 ou aquelas feitas para agradar padre Sílvio Celso de Melo nas festas de nossa padroeira, Nossa Senhora da Conceição. A fotografia da malsinada carga ambulante dá bem uma idéia de suas reais dimensões. É interessante notar, nessa fotografia, o orgulho que brotava veladamente do rosto de seu Dão ao sustê-la, na presença de Seu Orió, Seu Bitu e outras pessoas, admiradas, que se encontravam presentes à romaria que acompanhou o cortejo vindo do Alto do Campo da Serra. A bomba pretendida tinha uma força explosiva extraordinária, era voz corrente. Dizia-se que, ao ser detonada, todas as vidraças de Sumé seriam despedaçadas; as casas de alicerce fraco seriam derrubadas com o ribombo; os recém-nascidos teriam os ouvidos estourados, e assim por diante. O pior, é que a população, crédula, tinha essas coisas por verdade. A explosão da bomba seria um verdadeiro Dia de Juízo, a Batalha do Armagedon, o Apocalipse, enfim.

                Chega, então, o dia de explosão do artefato, um dia de domingo. Seu Dão, todo ancho e orgulhoso de sua indústria, de sua obra-prima, na qual havia posto todo o seu engenho e arte - desfilou olímpica e vaidosamente pela Rua Nova com a famosa bomba. Parou em frente à casa de Seu Orió (Oriosvaldo Travassos Campos, Guarda-Fiscal originário de antiga família do Congo, e esposo de dona Estela Araújo, nossa professora e diretora do vetusto Grupo Escolar Feitosa Ventura, tugúrio sagrado de nossas primeiras letras) onde se reuniu grande multidão para ver, tocar e apreciar a novidade. A fotografia que ilustra esta página é prova inconteste de que existiu, existiu mesmo, a famosa bomba. Alguns sumeenses ainda desconfiam que tudo não passou de lenda, de histórias noturnas geradas nas noitadas de pileques homéricos que tomavam religiosamente Elias Duarte, João de Deus Rafael, Machadinho, Doutor Antonio Torreão Brás, Juarez Rafael, Severino Leite e outros boêmios no famoso Bufê de Barata, na velha Praça Adolfo Mayer. Ainda bem que Carlinhos de Preta, que está na foto, está aí para provar a existência real do objeto de nossa história. 

                Surge, então, uma dúvida cruel. Quem iria tocar fogo no estopim? Quem teria coragem suficiente a tal empreitada? O próprio Seu Dão tinha lá suas desconfianças, pois sabia da potência fatal do artefato e não tinha motivos para se arriscar. Chegou-se, então, a um acordo. O fogueteiro, o nosso herói, engendraria um rastilho bem comprido para acoplar à bomba, e assim, o perigo estava afastado. Seria, ele mesmo, o encarregado pela detonação. Mas, por garantia, Seu Dão exigiu de Zé Farias que arranjasse um veículo rápido, potente, novo – que pudesse dar uma arrancada violenta para retirar do local imediatamente o agente que iria cumprir a nobre, heróica e perigosa missão. Assim, se fez, pois Nandinho Leite, que possuía o carro mais novo do Município à época, um Ford Mercury 1948, prontificou-se a levar e trazer Seu Dão são e salvo.

                Do observatório onde estávamos situados, em cima do Bufê de Barata, vimos passar na descida do Alto do Cruzeiro um vulto preto em alta velocidade pela estrada poeirenta e cheia de trepidações e catabis. Quando o bólide passou em frente ao Bar de Das Dores, José Soares, afeito, como sempre, a aumentar exageradamente o volume de suas estórias, avaliou a velocidade em cento e oitenta quilômetros por hora. Era o automóvel de Nandinho em louca disparada (relembrando Artur Vitrola) emergindo na vila, e, dizem alguns, que só foi parar em Santa Luzia , no hotel de Isaura. Lá, se encontrou com Pedro Odon e tomaram umas cervejas a fim de acalmar os nervos. Mesmo assim, o corajoso motorista permaneceu por um longo tempo bastante desconfiado.

 

                EPÍLOGO

 

                O final da estória é bastante conhecido em nossa terra. Depois de tanto alvoroço, despesas, anseios, expectativas e cuidados especiais na preparação do artefato, este não chegou a explodir. Na hora agá, viu-se, somente, uma grande nuvem de fumaça negra (esta, talvez, tenha chegado a Monteiro) lá pras bandas da Barragem de Zé Caboclo, nos Oitis dos Aleixos. Decepção total.

                Seu Dão, como não poderia deixar de ser, ficou enormemente encabulado com o acontecido. Achou, de pronto, uma desculpa para o seu insucesso, afirmando que o fracasso decorreu do pouco tempo dedicado à secagem das embiras molhadas que atavam a bomba. Depois, passou uns bons tempos andando por trás das ruas de Sumé para se esconder e evitar comentários desairosos à sua reconhecida competência como fogueteiro.

                Mas o tempo passou inexorável, e, um belo dia, Seu Dão, refeito, já se arriscava a andar livremente por Sumé. Passou, então, no Bufê de Barata, lá encontrando um velho cachaceiro que aqui chegara, vindo das bandas de Bezerros, no Pernambuco. Chamava-se Zé Cunha. Era um herói pícaro, isto é, não era bom, não era mau. Pobre, educado, manso por natureza, de boa prosa, era o homem das onze profissões: jogador de futebol, oficial na sapataria de Pedro Aleixo, músico da Banda de Padrinho Antônio Josué. Porém, tinha um luxo: toda vez que se embriagava (diariamente, quer dizer) no Bar de Barata, com bebidas sempre pagas por Elias Duarte, gozava da delícia de ser rebocado no carro de mão do nosso brioso Capitão Geraldo Mendonça, bom motorista e um dos maiores músicos de nossa terra.

                Quase dormindo numa mesa do bar, ainda babando pelo canto da boca e exalando os vapores do álcool, Zé Cunha ouviu uma quase piada da boca de Seu Dão, que lhe disse, com blandícia e lhaneza, como era do seu feitio:

 

                - Seu Zé Cunha, parece que, hoje, o senhor exagerou um pouco na bebida.

                Zé Cunha entreabriu os olhos, vislumbrou irreverentemente Seu Dão e respondeu na bucha:

 

                - É, MAS A BOMBA “FAIOU”.

 

                Pronto, era o que faltava. Ante as gargalhadas fatais e as cascatas de hilaridade recolhidas da boca dos presentes, Severino Leite, et caterva, Seu Dão não teve alternativa. Arrumou os poucos haveres que possuía, e foi embora definitivamente para Caruaru em cima do caminhão de Antonio do Óleo, que, justamente, neste dia, levava um carregamento de carvão para o agreste pernambucano.              

 

Post scriptum:

 

                Tudo isso ocorreu, realmente. Mas a versão, ora apresentada, tem a finalidade de resgatar uma verdade: a bomba encomendada não serviria apenas para avisar ao povo de Monteiro que Sumé agora era independente. Na verdade, todas as despesas feitas com o preparo da bomba foram pagas por Inácio Feitosa, político monteirense e amigo de Sumé, que tinha obtido uma grande vitória no Tribunal de Justiça numa contenda que mantinha com Pedrinho Bezerra a respeito da eleição para Prefeito de Monteiro daquele ano. Como o telefone do Correio, já naquele tempo, não funcionava muito bem, a melhor forma de Monteiro tomar conhecimento da chegada da comitiva de Inácio Feitosa em Sumé, em direção a Monteiro, era dar um tiro de estridência fenomenal. A bomba de Seu Dão serviria a tal desiderato.

 

                Revoguem-se, portanto, todas as disposições em contrário.

 

João Bosco Pereira

(João Pessoa-PB, setembro de 2004)

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