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O  fã do  Raul

O sumeense José Vanderlei Lucena de Souza Silva, mais conhecido por Delêca, é professor de matemática no Colégio Estadual, está concluindo o curso de matemática na UEPb e ainda consegue tempo para se dedicar a uma pequena serigrafia instalada em sua própria casa. Porém o que ele gosta mesmo de fazer é curtir o Raul Seixas, paixão que alimenta desde criança. Além de quadros - alguns pintados por ele mesmo -, fitas de vídeo, livros e fotografias, ele possui quase todos os discos do cantor, cujas capas foram cuidadosamente plastificadas. Toda a sua discoteca é em vinil, exceto o trabalho chamado Documento, lançado postumamente apenas em CD. O mais incrível é que ele colocou até o nome de Raul Seixas no seu filho caçula.

Conversamos com Delêca em sua própria casa, na manhã do dia 30.03.2002, sábado de Aleluia, acompanhado da esposa e dos quatros filhos, que parecem apoiar totalmente a mania dele. Estava conosco também o Ricardo Nunes, que deu ótimas contribuições, tanto na elaboração das perguntas como nas fotografia tiradas.

 

Delêca com a sua discoteca do Raul. Imagem do Raul, criada e pintada pelo próprio fã. Delêca em meio à sua coleção de quadros.

 

SONIELSON - Quando e como começou esta sua paixão pelo Raul?

DELÊCA - Começou em 1973. Antigamente, você sabe, nós não tínhamos botões de plástico para jogar futebol-de-botão, nós os fazíamos de casca de coco seco, cortávamos um pedaço redondo e esfregávamos no chão até ele ficar liso e ganhar brilho. A calçada da Igreja era um local ideal para isso, era áspera, tinha uma sombra muito boa e não incomodava ninguém. Tinha também um pára-raio que servia de antena para radinhos de pilha, pois nas casas os rádios pegavam muito ruim. Então algumas pessoas levavam rádio para a calçada da Igreja e nós ficávamos escutando também. Eu tinha dez anos na época. Como Ouro de Tolo era sucesso, todo dia passava. A rádio era a Difusora de Caruarú. Depois veio Gitã e, a partir daí, eu me interessei, porque eu gostava demais das músicas.

S - Então foi praticamente desde o início da carreira do Raul, porque ele se tornou conhecido nacionalmente em 1973.

D - É mesmo, então foi desde o início.

S - Como você conseguiu os discos?

D - A maioria eu ganhei de amigos. Mas o primeiro eu mesmo comprei, foi o Novo Aeon, de 1975. O único disco que eu não tenho é o Sociedade da Gran-Ordem Cavernista, lançado em 1971, sem autorização. Ele aproveitou a ausência do dono da gravadora, chamou alguns músicos e cantores e produziu o disco. Com ele estavam Sergio Sampaio, aquele da música Eu Vou Botar Meu Bloco Na Rua... e Miriam Batucada, cantora que morreu há pouco. Só foram tiradas cerca de 1.000 cópias, cuja grande maioria foi recolhida. Hoje é uma raridade.

S - Além de disco, o que mais você tem do Raul?

D - Tenho livros. Três livros: Raul, por ele mesmo; O Baú do Raul e Raul, uma antologia.Tenho fotos, cartazes, reportagens, revistas... Tenho também fitas de vídeo, duas gravadas na TV mesmo e outra conseguida junto ao fã clube Raul Rock Club, do qual sou sócio com a carteira número 3.315, de 30.03.89...

S - Então está completando 13 anos hoje.

D - É mesmo, é realmente uma coincidência. Mas este fã clube foi fundado pelo próprio Raul Seixas na Bahia, com o nome de Elvis Rock Club, depois o Silvio Passos, presidente do clube, mudou a sede para São Paulo e o nome do clube, com autorização do próprio Raul.

S - Você nunca pensou em fundar um fã clube aqui em Sumé?

D - Eu já fundei. Foi o Raul Seixista Fã Clube, fiz associações e carteiras, tenho a minha ainda. Mas depois o pessoal foi se distanciando, tinham outras coisas pra fazer e acabei ficando sozinho, mas eu não desisto fácil. Fiz programas de rádio por quase dez anos, na rádio Cidade Sumé. Era semanalmente, todos os domingos das doze à uma hora da tarde. Mas, por falta de patrocínio, foi ficando mais difícil e passei a fazer o programa apenas uma vez por ano, no aniversário da morte do Raul. Nesses programas eu passava músicas dele e falava coisas interessantes da sua vida. Esse programa anual era cedido pela rádio, talvez eu ainda volte a fazê-lo.

S - Como você recebeu a notícia da morte do Raul?

D - Eu estava aqui. Não tinha escutado rádio nem TV. Foram os amigos que me disseram. Eu simplesmente não acreditei. Achava que isso jamais poderia acontecer. Liguei a TV, mas continuei a não acreditar. Amigos começaram a ligar pra mim de São Paulo, do Rio e de Brasília. Diziam que tinham lembrado imediatamente de mim. Aí foi que eu comecei a cair na realidade.

S - Como foi a história do nome do seu filho caçula, que se chama Raul Seixas.

D - Foi o seguinte. Na verdade, todos os nomes dos meus filhos têm histórias. Eu tenho uma filha e três filhos mais novos. Ela veio e eu botei logo o nome de Aline, por causa da música também. O primeiro homem é Vanderson, nome de um instrutor de um curso que fiz em Recife. Eu escutei o nome dele e gostei. Como começava com a minha letra, V, eu disse, pronto, está decidido. Quando veio o segundo filho homem, eu estava fazendo o recadastramento da emergência. Aí chegou um camarada com o nome de Vanklin. Eu disse: É Franklin, não? Ele negou: Não, é Vanklin mesmo. Eu, então, lhe disse: Vou botar o seu nome no meu filho. Às vezes eu me encontro com ele e ele pergunta: Como vai Vanklin? E sorri. Aí veio o mais novo e eu pensei: Já está passando da hora de fazer uma homenagem ao Raul. Fazia dois anos que o Raul tinha morrido e então eu fiz a homenagem. Mas não foi fácil, deu um trabalho danado para eu registrar. Dona Edite, do Cartório, não queria de jeito nenhum, dizia que o nome Raul, tudo bem, mas Seixas era sobrenome, não podia. Mas eu não desisti. Falei com uma promotora que disse que era possível, que essa história de sobrenome não existia mais. Eu voltei a falar com Dona Edite que, por sua vez, já havia conversado com o juiz e já estava aceitando fazer o registro. Mas aí vem a parte mais interessante. Eu cheguei no Cartório e Dona Edite não estava. Então eu falei para a funcionária que estava tudo resolvido e que já podia fazer o registro. Ela também já sabia do resultado favorável e iniciou o processo do registro. Aí eu disse: a parte Raul Seixas é entre aspas. Ela não achou que fosse nada de mais, pois já estava tudo esclarecido, e fez. Assim passou o nome dele, que ficou "Raul Seixas" Carneiro de Souza Silva, para não haver dúvida da homenagem. Mas a dona do Cartório até hoje não sabe deste detalhe.

S - Agora vai saber.

D - [risos] É, mas agora não tem mais jeito.

S - Um dos grandes parceiros do Raul está fazendo um grande sucesso hoje no mundo da literatura, é o Paulo Coelho. Você já se interessou  em ler alguma coisa dele ou conhecê-lo? Qual a sua opinião sobre ele?

D - Olha, eu não li nada dele não. Mas acho interessante, até porque grandes músicas do Raul foram feitas em parceria com ele. Eu tenho uma fita com eles dois nos Estados Unidos, passeando nas ruas...

S - Qual a mensagem que você gostaria de deixar para todos os sumenautas do mundo?

D - A mensagem que eu deixo é que, sempre que possível, escutem o Raul. Ele tem muita coisa a passar pra gente. A sua palavra é sempre atual.

 


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