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SONIELSON
- De início, eu queria deixar claro que a minha posição neste
momento é próxima do agnosticismo, ou seja, eu nem estou aqui como
crente nem como crítico ferrenho. Por outro lado, também não sou
jornalista, e, como a pretensão é publicar a entrevista no site de
Sumé, o interesse pelo fato foi justamente por ele acontecer aqui.
MESTRE
DENGUÊ - Tudo bem. Eu é que agradeço a sua atenção.
S
- Conte-nos, então, desde o início da sua carreira.
MD
- Eu comecei com pedrinhas... Meu pai era kardecista, fazia
levitação, efeitos físicos. Eu tinha medo daquilo, por isso fui
carmelita no Recife. Mas depois achei que era melhor ser
evangélico. Quanto à profissão, botei na cabeça que seria
cantor. Cheguei a ganhar um concurso de calouros no programa de
Paulo Marques, na TV Jornal do Comércio. Então, fui embora
para o Rio, indo morar em Nova Iguaçu, e depois me mudei para São
Paulo. Fui lavador de carro, pintor de casa, tudo em busca do sonho
de ser cantor, mas nada deu certo. Aí conheci um sujeito que me
revelou este dom. Ele contou toda a vida do meu pai, assim: olho no
olho. Meu pai tinha sido maçom também, e naquela época já
estava no Oriente [tinha morrido]. O nome do cara era Roberto
Quarantan e ele deu esperança de conseguir uma gravadora para mim.
Daí eu passei a freqüentar a Casa do Caboclo Quarantan, que foi o
meu guru. O local da macumba era muito organizado, havia muita
seriedade em tudo. As pessoas cantavam... Um dia o meu guru
incorporou o caboclo e me pediu para eu sair por uma porta e voltar
por outra. Aí me disse que eu também iria ser um guru, pois de
outra forma teria problemas de saúde, coração, pressão alta, e
poderia até morrer. Então eu desmaiei e sofri uma bruta queda.
Quando eu acordei as pessoas estavam ao meu redor me dizendo que eu
teria que continuar e me diziam o que eu teria que fazer.
S
- E quando você começou a trabalhar por sua conta?
MD
- Na verdade, eu nunca trabalhei. As pessoas batem na minha
porta e me dão dinheiro. Porém, não desisti de ser cantor... um
dia.
S
- E na umbanda?
MD
- Bem, eu passei um ano no Centro, me
formando. Falava Iurubá, uma língua africana. Veio Pai Joaquim, Exu
Reino, Lúcifer, Maria Sete Estrelas, Tranca Rua, Maria Molambo e
uma criança chamada Serginho. Mas estas entidades vinham só para
ajudar as pessoas, era tudo voltado para o bem. Mesmo assim eu fui
perseguido pela polícia. Atendia de graça. Estava na merda. Foi
quando o Quarantan me orientou a cobrar, não a mediunidade, mas a
paranormalidade. Se incorporasse, não cobrava. Nesse tempo eu
estava muito ligado ao candomblé. Incorporei Maria Molambo que me
disse como tinha morrido a atriz Daniela Perez, as tesouradas e
tudo, foi quando eu tive reconhecimento nacional. Então eu fiz uma
operação em uma mulher, que estava com a perna quebrada. Era da
família Salim. Aí melhorou o nível e a situação melhorou. Um
dia eu me olhei no espelho e me vi nitidamente vestido de branco,
todo abotoado, parecia um príncipe. Daí eu adotei o branco pra
trabalhar, pois é bom para a força espiritual. Entrei em outra
dimensão, deixei de ser pai-de-santo. Certo dia me apareceu um
cidadão que me disse: O senhor foi convocado! Dizia se
chamar Tutis e me chamava de Brólis. Possuía quepe e
me disse que eu agora era um soldado das forças do bem.
S
- E por que adotou o nome de Mestre Denguê?
MD
- É a entidade e é a minha proteção. Se alguém quiser fazer
o mal, não vai para João Carlos, vai para o Mestre Denguê.
S
- Bem, e depois...
MD
- Voltei para Recife com o objetivo de fechar todos os terreiros
de enganadores, que roubavam. Passei a fazer curas. Fiz uma
operação em Irani Rocha, esposa de Francisco Rocha, foi um
transplante de córnea. Eram ricos. Quando perguntaram quanto era,
eu disse: rasgue um lençol que não usam mais e joguem no mar.
Outra tinha problemas na espinha, estava acamada. O seu médico era
o Dr. João Monteiro, ginecologista da UFPe, eu coloquei a mão,
após a primeira operação ela já começou a andar. Perguntaram
também quanto era, e eu disse: uma rosa, coloquem nos pés de
Iemanjá. Eles insistiam e diziam: este é o pagamento do santo,
mas, e o seu? - Eu respondia: E foi o santo que fez o
trabalho. Certa vez eu ia preso e o soldado sofria de fortes
dores nas costas, eu o ajudei e a dor passou. Participei do programa
Sem Fronteiras, de Pedro Paulo, que me deu a maior força em minha
vida. Eu estava no programa Geraldo Freire, no Recife, no dia em que
Ulisses Guimarães desapareceu. Eu disse logo que ele estava morto e
no mar. Ele adorava o mar. Disse que não estava no helicóptero,
que não estava preso nem no cinto de segurança nem nas ferragens.
S
- E como o senhor chegou à Brasília?
MD
- É uma hierarquia, como se eu tivesse sido soldado, cabo,
sargento e tivesse chegado à Brasília como general. Me mandaram
para a chácara do Golbery. Foi o primeiro teste. Então eu pedi
para me levarem ao Senado. Zé Múcio era presidente do Senado. Com
estas relações, eu consegui um lugar na Livraria Forças Ocultas. Ali
eu dava consultas e conversava com as pessoas. Fiz um trabalho para
um rapaz que queria ajudar o pai. Então eu descobri que o próprio
filho havia feito magia contra o pai, para ficar com a herança.
Zangado, ele quis me matar e eu tive que fugir depois para Recife.
Surgiram conversas sobre o meu sumiço, mas o dono da Livraria
Forças Ocultas ligou pra mim e eu lhe expliquei tudo.
S
- Vamos dar um salto para o tempo atual. Quanto o senhor cobra
pelas consultas?
MD
- Eu cobro de acordo com a pessoa. Filantropia aumenta a força.
Quem não pode pagar, não paga. Assim, eu ajudo com a metade e a
outra metade me ajuda com as despesas, eu não quero ter lucro.
S
- Mas, em termo de números, quanto seria uma consulta?
MD
- É em média dez reais, geralmente dez reais, se puder pagar.
S
- Como é feita a consulta, digo, qual é o seu método?
MD
- Pela íris.
S
- Pela íris?
MD
- Exatamente, pelo olho.
S
- Se soubesse, tinha vindo de óculos escuros.
MD
- Como?
S
- Estou brincando.
MD
- Eu vou lhe dizer o que eu sinto: você é uma pessoa muito tranqüila,
equilibrada e não tem medo da morte. Vejo muitos animais em sua
velhice, acho que há algo como uma fazenda em seu futuro. Você tem
ou pensa ter animais?
S
- Ainda não.
MD
- Pois pode contar com isso.
S
- Além de previsões sobre o futuro, por quais outros motivos
as pessoas lhe procuram?
MD
- Olha, quando as pessoas chegam eu não gosto que elas falem.
Não gosto que elas digam o nome nem o problema.
S
- E quais são os tipos mais comuns de problemas?
MD
- Ah, sai de tudo. Problemas pessoais, políticos, etc. Quando
é saúde eu não cobro.
S
- E quais são as recomendações?
MD
- Mudar de hábitos, de atitudes. Indico lugares por onde andar,
cores das roupas, não andar em círculos, evitar pegar as
esquerdas...
S
- O senhor esteve no Distrito Federal, considerado por muitos um
lugar sagrado, místico, ecumênico. Como o senhor viu isso, qual a
sua relação com outras religiões?
MD
- Eu me dou muito bem. Eu gosto do Evangelho, da Igreja. Como eu
disse no início, quis até ser padre! Muitas vezes eu ajudei o
Padre Umberto, quando celebrava missa em Água Fria. Eu também sou maçom,
da ordem Rosa Cruz, grau 18 da maçonaria.
S
- O senhor acredita em discos voadores?
MD
- Eu acredito. Acredito que existam extraterrestres. Uma vez em
Recife, juntamente com o meu pai, eu vi um disco voador. Foi uma luz
que se deslocou inclinada, subiu e desceu velozmente e várias
vezes, aí desapareceu. Sabe o que é que eu não acredito! Você
vai se admirar. Eu não acredito que o homem foi à lua, minha
cabeça é muito pequena para isso [risos].
S
- Então, como o Mestre Denguê descobriu Sumé?
MD
- Eu moro já há tempo em Campina. Daí eu fui convidado por
Antonio Mariano para realizar uma palestra em Camalaú, no Colégio
Estadual, sobre a mente e a paranormalidade, quem somos nós.
S
- E Sumé?
MD
- Quando passei por aqui eu senti elementos fortes abaixo de
Sumé. Sinais de civilizações evoluídas, índios com grande poder
mental. Sumé tem uma energia fora do comum. Só sente quem é
paranormal.
S
- Qual é a previsão da sua estadia por aqui?
MD
- Monteiro, Camalaú e Sumé, vou ficar para sempre.
S
- Esta é uma região tão pobre, talvez a mais pobre do estado.
Alguém pode até estranhar essa sua opção.
MD
- Eu vim justamente porque é uma região pobre, as pessoas são
carentes até de palavras. Mas a carência maior é espiritual. Veja
o evangelho, Jesus curava com o poder mental.
S
- Como está o seu trabalho atualmente?
MD
- Eu tenho atendido cerca de duzentas pessoas, somente em
Camalaú. Mas trabalho também nas cidades vizinha. São pessoas
pobres ao extremo. Mas eu me sinto bem no meio delas. Acho que a
minha simplicidade também cativa elas. Eu já morei em casa
luxuosa, mas acho melhor um lugar simples. Eu durmo no chão. Meu
espírito não gosta de luxo.
S
- E quanto a Sumé?
MD
- Desejo fazer um trabalho mais sério em Sumé. Quero construir
um espaço esotérico que já tem até um nome: Talismã do
Equilíbrio, e será em cima da serra. Já existem santos lá,
quem os colocou o fez instintivamente. Eu percebi isso de forma
muito forte. Se fosse por grana teria escolhido Monteiro e jamais
Sumé e Camalaú.
S
- E quando pretende começar os trabalhos aqui?
MD
- O mais rápido possível. Veja: nada é por acaso! Cheguei em
Sumé e a casa que aluguei foi de uma pessoa que tem interesse, mas
não tem idéia do que. E, mesmo assim, ele disse: Veja o que vai
fazer. Eu tenho amizades, posição na sociedade, não posso me
decepcionar... Eu gostei muito porque ele foi muito franco. E
está certo. Não quis nem que eu colocasse placa. Mas não precisa,
as pessoas já sabem. Rua Vicente Preto, 15...
S
- O número 15 também lhe diz algo?
MD
- Claro. Um e cinco, seis, sucesso, dinheiro... Eu também
trabalho com números. Eu decifro a vida de uma pessoa somente
jogando dominó. É a pessoa colocando as pedras e eu descobrindo.
3: trindade; 7: sozinho; 5: cachorro, família; 4: base,
pirâmide...
S
- Eu sei que o senhor convive com este problema, e já deve ter
até se habituado a ele. Mas, como o senhor reage se alguém
lança-lhe suspeitas de charlatanismo?
MD
- A desconfiança é mais em cidades pequenas. A Jaqueline, da
Rádio, foi a primeira pessoa a fazer uma consulta ao vivo.
Ela estava em Monteiro e eu na rádio daqui. Terminei dizendo que
ela havia pintado o cabelo e que queria comprar um sapato de salto
alto, sem nem eu a conhecer ainda.
S
- Teve algum outro caso que o senhor achou interessante por
aqui?
MD
- Apareceu em Camalaú um casal, já maduro, com problemas
conjugais. Eu vi o problema e disse: Vocês têm que refazer as
alianças. Pois, há muitos anos antes eles tinham, por
questões financeiras, vendido uma das alianças e partido a outra
em duas. Então eles mandaram refazer as alianças e a situação
normalizou.
S
- Para finalizar, já que o senhor está mais vinculado a Sumé
e Camalaú, qual das duas é melhor, Sumé ou Camalaú?
MD
- As duas são muito boas.
S
- Sim, mas, desculpe a insistência, e entre as duas?
MD
- Sumé é mais que Camalaú e Monteiro. Camalaú traz uma paz,
um bálsamo... Sumé carrega as baterias. Gosto de Camalaú para
dormir e Sumé para recarregar. É como se Camalaú fosse a lua e
Sumé fosse o sol.
S
- Obrigado.
MD
- Eu que agradeço. |